Do elevador ao carrinho de compras: por que o consumidor está redescobrindo o condomínio como ponto de venda
O crescimento acelerado dos “mercadinhos” dentro de prédios residenciais reflete uma mudança de comportamento que Renato Alcântara já observava de outro ângulo: a busca por relações de consumo mais próximas e imediatas
Nos últimos dois anos, um movimento silencioso mudou a rotina de compras em milhares de prédios brasileiros. Pequenos estabelecimentos instalados dentro de condomínios, os chamados mercadinhos de condomínio, deixaram de ser exceção para se tornar parte do cotidiano urbano.
Segundo levantamento da Associação Paulista de Supermercados (Apas), esses pontos de venda cresceram 53,5% em 2024 na comparação com o ano anterior, enquanto supermercados e hipermercados tradicionais recuaram 10,1% no mesmo período. Ao final de 2024, o país já contava com cerca de 10 mil unidades desse formato, movimentando aproximadamente 2 bilhões de reais por ano.
O fenômeno acompanha uma transformação estrutural mais ampla. De acordo com o Instituto Nacional de Condomínios e Apoio aos Condôminos (INCC), o número de condomínios no Brasil saltou de cerca de 420 mil em 2016 para mais de 520 mil em 2024, um avanço de 23,8% em oito anos.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reforça esse retrato ao apontar que o país soma 13,3 milhões de endereços em arranjos condominiais, com mais de 25 milhões de brasileiros vivendo em apartamentos, concentração que chega a 16,7% da população na região Sudeste.
Para quem estuda comportamento de consumo há duas décadas, como o especialista em marketing e vendas Renato Alcântara, o crescimento desses pequenos mercados dentro dos condomínios não é um modismo passageiro, mas a expressão mais recente de algo que ele já vinha observando em outras frentes do varejo brasileiro. Convidado a comentar o tema, Alcântara enxerga no fenômeno uma continuidade natural das mudanças que já transformavam a relação entre marcas e consumidores nos últimos anos.
“O consumidor não está apenas buscando praticidade. Ele está redesenhando o que considera uma boa experiência de compra. Quando alguém prefere descer um andar a percorrer um supermercado inteiro, isso diz muito sobre o valor que o tempo e a proximidade ganharam na vida das pessoas”, avalia.
Alcântara chama atenção para um ponto que, segundo ele, costuma passar despercebido nas análises puramente numéricas do setor: o mercado de condomínio não compete diretamente com o supermercado tradicional, mas ocupa um espaço de confiança que precisa ser construído todos os dias, morador por morador. É um ambiente onde a reputação se forma rápido, para o bem e para o mal, porque o público é o mesmo, recorrente, e convive fisicamente com o espaço de venda.
“Esse tipo de comércio vive de relação. Não existe anonimato entre quem vende e quem compra, como acontece numa rede grande. Isso exige um preparo comercial diferente, porque cada erro de atendimento se paga com a perda de um cliente que você vai encontrar todos os dias no elevador”, pontua.
Formado em Marketing, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios e mais de 12 certificações na área comercial, Alcântara defende que o crescimento acelerado desse formato de varejo deveria servir de alerta para empresas de todos os portes, não apenas para quem atua diretamente no segmento condominial. Para ele, o dado mais relevante por trás dos números da Apas e do INCC não é o tamanho do mercado, mas o que ele revela sobre a paciência cada vez menor do consumidor brasileiro com processos de compra longos, impessoais ou mal conduzidos.
“Toda vez que um novo formato de varejo cresce assim, rápido e sustentado, é porque ele resolveu algo que os modelos anteriores não estavam resolvendo bem. Quem trabalha com vendas precisa prestar atenção nesses sinais, porque eles chegam antes das crises de faturamento”, conclui.
À medida que o mercado condominial brasileiro consolida sua expansão, com estudos como o Censo Condominial 2025/26 mapeando de forma cada vez mais detalhada o comportamento de síndicos, gestores e moradores, a leitura de especialistas como Alcântara ganha espaço. Não como quem vende dentro desses espaços, mas como quem ajuda o mercado a entender por que o consumidor está, cada vez mais, decidindo comprar sem sair de casa.
Por: Fernando David
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