Casos práticos e estratégias acessíveis inspiram o novo livro de André Charone
Autor de diversas obras voltadas ao universo do empreendedorismo e da gestão, André Charone acaba de lançar “Empresário sem Fronteiras – Importação e Exportação para Pequenas Empresas na Prática”.
Reconhecido por sua atuação como consultor, professor universitário e colunista em grandes veículos de imprensa, Charone tem como missão democratizar o acesso ao conhecimento em negócios internacionais, especialmente para os pequenos empreendedores. Nesta entrevista exclusiva ao Portal Diário do Negócio, ele fala sobre os desafios, oportunidades e estratégias para empresas brasileiras que desejam se abrir ao mercado global.
Diário do Negócio – Seu novo livro, Empresário sem Fronteiras – Importação e Exportação para Pequenas Empresas na Prática, se propõe a ser um guia realista e acessível. Como foi o processo de equilibrar profundidade técnica com uma linguagem clara para empreendedores que não têm familiaridade com comércio exterior?
André Charone: Como contador e consultor, tenho muitos anos de experiência no atendimento a vários tipos de empreendimentos, desde pequenos empreendedores até multinacionais de grande porte. No entanto, percebi que são os empreendimentos de menor porte que sentem maior dificuldade no processo de internacionalização, principalmente por não terem muito conhecimento técnico. Para quem não entende sobre, internacionalizar pode parecer um “bicho de sete cabeças”. Aí entrou muito a minha experiência na docência, onde também atuo há mais de uma década. Como professor universitário, meu diferencial sempre foi o de transformar assuntos altamente complexos em tópicos de fácil compreensão. Nesse livro, busquei fazer isso, ainda que não voltado diretamente para os meus alunos de graduação, mas sim para pequenos empreendedores que queiram compreender, sem enrolação ou linguagem excessivamente técnica, o mundo dos negócios internacionais.
Diário do Negócio – Você já escreveu outras obras, entre elas A Verdade Sobre o Dinheiro e Negócios de Nerd. Como o amadurecimento como autor e consultor influenciou na construção deste novo título?
André Charone: Parece meio clichê, mas a verdade é que cada obra é como se fosse um filho diferente. Todo livro tem a sua abordagem própria e uma identidade única. Algumas das minhas obras são mais técnicas e voltadas para o público estritamente acadêmico, enquanto outras (como o A Verdade Sobre o Dinheiro) são voltadas ao público em geral e, portanto, possuem uma abordagem mais acessível, ainda que sem perder o rigor técnico. Já o Negócios de Nerd é um caso à parte, sendo praticamente uma declaração de amor a esses dois universos: o geek e o mundo dos negócios. Até mesmo por isso, ele está disponível gratuitamente para download, pois considero essa obra muito mais como uma paixão pessoal do que um produto.
Diário do Negócio – Falando em Negócios de Nerd, há alguma referência ou conexão entre aquele universo mais criativo, ligado ao seu lado geek, e este livro mais técnico sobre internacionalização?
André Charone: Não, embora eu ainda utilize muito do universo geek como ferramenta didática (nas minhas redes sociais, por exemplo). Porém, é como eu disse anteriormente, cada obra tem os seus objetivos específicos e a sua linguagem própria. No caso do Empresário sem Fronteiras, a ideia é ser mesmo um guia bem prático e direto para quem deseja se internacionalizar.
Diário do Negócio – Muitos empreendedores acreditam que internacionalizar é apenas exportar. No livro, você mostra que a estratégia pode começar pela importação. Quais são os pontos críticos que o pequeno empresário deve dominar antes de dar esse passo?
André Charone: Mesmo com as altas taxações aplicadas sobre as importações no Brasil, comprar insumos ou mercadorias de fora do país pode ser uma estratégia muito atrativa, impulsionando o lucro das empresas e as abrindo para esse universo internacional.
Antes de importar, o pequeno empresário precisa dominar a formação real de custos, entender os tributos envolvidos, planejar a logística e escolher fornecedores confiáveis. Importar não é só comprar barato fora: é ganhar competitividade dentro do Brasil e se preparar para dar o próximo passo no mercado internacional.
Diário do Negócio – A precificação para mercados externos é um dos maiores desafios. Quais metodologias ou práticas você recomenda para que pequenas empresas brasileiras consigam competir sem comprometer sua margem de lucro?
André Charone: A precificação internacional é um dos maiores desafios, mas não pode ser um chute. O empresário precisa considerar todos os custos (incluindo produção, embalagem, logística, tributos e câmbio) e definir sua margem de forma estratégica. Eu recomendo sempre partir do preço FOB, adicionar os custos do Incoterm negociado (CIF, DDP etc.), e só então comparar com os preços praticados no mercado de destino. Pesquisar concorrentes, adaptar o posicionamento da marca e manter uma margem de segurança cambial são práticas essenciais para competir sem comprometer a lucratividade.
Diário do Negócio – Você dedica parte da obra a temas complexos como habilitação no Radar/Siscomex e regimes tributários. Como transformar esses pontos técnicos em algo aplicável no dia a dia de uma pequena empresa?
André Charone: Sei que esses assuntos podem parecer burocráticos demais, mas no livro eu os traduzo em passos práticos. Em vez de termos técnicos, mostro o impacto direto no dia a dia: sem habilitação no Radar, a empresa nem consegue importar ou exportar; já a escolha do regime tributário define se a operação vai ser lucrativa ou inviável. Transformar o técnico em aplicável é mostrar o “para quê serve” e o “quanto custa” cada decisão. Quando o pequeno empresário enxerga isso, o assunto deixa de ser abstrato e passa a ser estratégico.
Diário do Negócio – O cenário pós-pandemia e a digitalização abriram novas fronteiras de mercado. Quais setores você considera mais promissores para pequenas empresas brasileiras no comércio internacional hoje?
André Charone: O cenário pós-pandemia acelerou a digitalização e abriu portas especialmente para setores em que o Brasil tem diferencial competitivo. Vejo como muito promissores: a economia criativa (moda, artesanato, design e biojoias), que encontra público em marketplaces globais; alimentos e bebidas com identidade local, como cafés especiais e produtos naturais, valorizados pela autenticidade; cosméticos e produtos sustentáveis, que aproveitam a biodiversidade brasileira; e serviços digitais, como tecnologia, educação online e marketing, que não enfrentam barreiras alfandegárias. Esses são setores nos quais pequenas empresas conseguem competir de igual para igual no mercado internacional.
Diário do Negócio – Além da teoria, você traz experiências reais de consultoria e sala de aula. Qual foi o caso mais marcante que você acompanhou de uma pequena empresa que conseguiu se internacionalizar com poucos recursos?
André Charone: Um dos casos mais marcantes que acompanhei foi de uma pequena empresa de biojoias artesanais, comandada por mulheres ribeirinhas da Amazônia. Com poucos recursos, mas muita autenticidade, elas começaram a vender em feiras locais e depois criaram uma vitrine no Etsy, um marketplace internacional. O investimento inicial foi basicamente em boas fotos, tradução dos anúncios e embalagens adequadas para exportação. Com o apoio de programas de capacitação e o uso do Exporta Fácil dos Correios, os primeiros pedidos internacionais começaram a chegar dos Estados Unidos e da Europa. Esse caso mostra que não é preciso ter milhões para se internacionalizar: é preciso estratégia, profissionalismo e saber contar bem a história do produto. Pequenas empresas podem, sim, competir globalmente quando valorizam sua identidade e usam os canais certos.
Diário do Negócio – Ao longo da sua trajetória, você se consolidou também como colunista e voz ativa em veículos como Estadão, Folha e Pequenas Empresas Grandes Negócios. De que forma essa presença na mídia contribui para reforçar sua missão de democratizar o acesso ao conhecimento sobre negócios internacionais?
André Charone: A presença em veículos grandes tem um papel fundamental na minha missão de democratizar o acesso ao conhecimento. Muitas vezes, temas como tributação, comércio exterior ou estratégias de internacionalização parecem distantes da realidade do pequeno empreendedor. Ao levar esses assuntos para a grande mídia, consigo traduzi-los em linguagem simples, com exemplos práticos, e mostrar que qualquer empresário pode compreender e aplicar esses conceitos. A mídia é um canal de educação em escala: ela amplia o alcance da minha mensagem e ajuda a mostrar que internacionalizar não é privilégio das grandes corporações, mas uma oportunidade concreta para os pequenos negócios.
Diário do Negócio – Para finalizar: quais são os próximos projetos editoriais? Podemos esperar novas obras que unam o seu olhar técnico sobre negócios e a sua identidade geek que já é marca registrada?
André Charone: Já tenho alguns projetos engatilhados para os próximos meses, mas não vou dar nenhum “spoiler” (risos). Porém posso garantir que em breve virá muita coisa boa, inclusive utilizando esse universo do mundo geek. O que vem pela frente é um esforço ainda maior de traduzir temas complexos em conteúdos que empoderem o pequeno empreendedor, seja em formato de livros, colunas, podcasts ou até HQs.

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